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Cosmogonia em Platão


Escrito em: 06/01/2025

Publicado em: 29/10/2025

Trechos retirados do livro "No princípio era a maravilha" de Enrico Berti, em que o autor explica o pensamento de Platão descrito em Timeu.

“Platão não esqueceu a lição de Parmênides, ou seja, que a ciência é conhecimento de verdades necessárias. Uma vez que no mundo sensível tudo muda, a ciência tem por objeto o "Mundo das Ideias", ou seja, os exemplares eternos das coisas. Tal mundo não tem nem princípio, no sentido de origem, nem fim, ainda que Platão admita que as Ideias têm um princípio, sentido de uma causa do ser delas, causa eterna de um ser igualmente eterno, a Ideia do Bem”

Mesmo não sendo objeto de estudo real da ciência, como atestado anteriormente, Platão também se pôs o problema da origem do universo sensível, pois, mesmo não sendo o verdadeiro ser - como diria Parmênides - também não era apenas aparência, mas mais propriamente "imagem" (eikon) do mundo das Ideias, ou seja, assim como as imagens não são propriamente aquilo que espelham, também o mundo sensível não é verdadeiramente real, mas reflexo do mundo das ideias: uma via média entre o verdadeiro ser e o nada.

Platão associa a origem do mundo sensível à obra de um artífice, em grego "Demiurgo": Os artífices fabricam as próprias obras (mundo sensível) olhando em um modelo (mundo das idéias), e, se suas obras são belas, certamente é belo o modelo utilizado. Como este mundo sensível é belo, pois é ordenado e regular, deve-se concluir que ele foi fabricado por um artífice que olhava para um modelo belo e eterno:

“Mas é claro a todos que olhou para o eterno, porque o mundo é o mais belo dos nascidos, e ele é o melhor dos autores.”
“14Ele era bom, e em quem é bom jamais nasce inveja alguma por nada. Imune, portanto dela, quis que todas as coisas se tornassem semelhantes a ele quanto possível. \[...] Por isso, o deus (_ho theos_), querendo que todas as coisas fossem boas e, quanto possível, nenhuma delas má, tomou, então, o que havia de visível e que não estava em repouso, mas se agitava desregulada e desordenadamente, e o levou da desordem à ordem, considerando isso totalmente melhor do que aquilo. (Platão, _Timeu_ 29 e-30 a)”

Para Platão, então, este demiurgo é um deus, que fabricou o mundo por bondade, e que não criou o mundo, mas apenas o ordenou do caos. Por um lado, Platão parece conferir a mesma motivação que o Deus verdadeiro (cristão) teve quando criou o universo, mas por outro, este artífice não é todo poderoso nem criador, pois apenas ordenou o que já existia previamente.

Receptáculo

Fica-ser sabendo na continuação do diálogo que a realidade visível, subsistente na fabricação do mundo, estava constituída pelos quatro elementos, água, ar, terra e fogo, os quais se agitavam dentro de um "receptáculo", ou seja, um recipiente (Platão também o chama de "nutriz", "mãe" e "região (khôra)). Nele, que existe eternamente, se colocam as coisas sensíveis, ou seja, as imagens das Ideias. Essas ultimas, produzem-se dentro do receptáculo do mesmo modo como as imagens dos objetos sensíveis se formam num espelho d'água. Os quatro elementos de que o receptáculo é composto é que se comportam como matéria, exatamente como acontecia para os filósofos anteriores.